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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

No ínico era o verbo...

Recordando memórias ainda vivas da minha infância, aviva-se-me à mente uma ideia, estranha o suficiente para tentar entendê-la. Actualmente sendo um descrente no divino, relembro que em criança ia engolindo as doses litúrgicas que me eram impingidas. Mas sempre tive imensas dúvidas, que as dissipei ainda imberbe. Lembro-me de pensar: se Deus criou o Homem à sua imagem, certamente que deveria ser um Homem aparentemente comum e banal fisicamente. Este é um simples pensamento de uma criança apenas curiosa. Mas em tempos ao ler Milan Kundera, fui invadido por este pensamento, mas numa fase muito mais avançada e não menos ambígua. Um Deus de carne e osso, com olhos, boca, braços, ouvidos e demais peças anatómicas, certamente também possuidor de intestinos! Creio estar a pisar um caminho antropológico-cristão que me passa ao lado, mas fui “obrigado” a ser cristão, e sei o suficiente sobre a religião para esclarecer a minha própria curiosidade. Apregoam que Deus é omnipotente, omnisciente e omnipresente… e se o homem semeia guerras e destruição, é porque foi dotado de livre arbítrio. Era isto que há duas décadas atrás eu procurava. Atestar sem reservas, que a teologia que conhecia, ou deveria ser aceite sem interrogações, devendo para isso ser crente, ou então, reconhecer e demonstrar interesse pelo inusitado.
Deus dá a liberdade ao homem e podemos admitir que não é o culpado pelos crimes da humanidade. Correcto. Mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente àquele que criou o homem, somente a ele... Pode parecer herético o pensamento, mas como não sou crente… vejo agora claramente que a sinceridade de uma pergunta, é apenas total nas crianças, porque ainda não possuem valores suficientes para artimanhas filosóficas.
Muito mais importante e real do que o debate entre os que crêem na criação divina do universo e os que crêem no acaso, é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada ao Homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas. Creio que no 1º capítulo do génesis, diz que o mundo foi criado como deveria ser, o ser humano é bom e, portanto, a sua função é procriar. Muito limitativo…mas se possuímos essa função, também possuímos a função de defecar, quer no sentido conotativo como denotativo. A nossa cultura, que tantas vezes é intolerante com a merda que se faz, não obstante é uma prova irrefutável de parte do que somos. Quero dizer que, defecar é dar uma prova quotidiana do carácter inaceitável da criação.
Ou se concorda com isto, e a merda é aceitável, ou então, Deus criou o homem de uma maneira totalmente inadmissível.

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