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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O carácter dos olhos

Os Homens são tão pouco governados pela razão nos seus sentimentos e opiniões que julgam sempre os objectos mais por comparação do que segundo o seu preço e valor intrínsecos. Aqueçamos uma das mãos e arrefeçamos a outra; a mesma água parecerá ao mesmo tempo quente e fria, conforme a disposição dos diversos orgãos. Um pequeno grau de uma qualidade, sucedendo a um grau maior, produz a mesma sensação que se fosse inferior ao que efectivamente é. Uma dor moderada que se segue a uma dor violenta, já não parece dor, ou antes torna-se um prazer; assim como, por outro lado, uma dor violenta, que se segue a uma dor moderada, causa mágoa e mal-estar dobrados. Ninguém pode duvidar que assim seja com relação às nossas paixões e sensações. A questão está pois em saber como, a partir da mesma impressão e ideia, podemos formar juízos tão diferentes sobre o mesmo objecto, num momento admirar-lhe a massa e noutro desprezar a sua pequenez. Julgo que se pode aceitar de uma forma geral que tudo o que se apresenta aos nossos sentidos, qualquer imagem que se forme na imaginação, é sempre acompanhada por uma certa emoção ou movimento da alma que lhe seja rorporcional. Ora, uma grande emoção, que sucede a uma pequena torna-se ainda maior e eleva-se acima da suas proporçoes comuns. Um objecto pequeno faz parecer ainda maior um objecto grande, e vice-versa.O efeito conduz a nossa vista para a causa habitual, um certo grau de emoção por uma certa grandeza observada., mas não consideramos que esta comparação possa mudar a emoção sem mudar nada no que a despoletou.  Quando um criminoso reflecte no castigo que merece, a ideia que tem desse castigo aumenta por comparação com o seu bem-estar e contentamento presentes, o que o leva, de certo modo, a buscar o mal-estar para evitar um contraste tão desagradável. Este raciocínio explica a meu ver, a origem da maldade ou do desejo que assumimos nas opiniões que fazemos e julgamentos que emitimos sempre do alto do nosso pedestal irreprovável. A rectidão e o bom senso, são constantemente renegados para segundo plano em detrimento de uma pré-emoção confortável que não despegamos por capricho e empáfia.
Nada pode desenganar-nos, nem mesmo os nossos sentidos,que, longe de corrigirem um juízo errado, são muitas vezes pervertidos por ele e parecem apoiar esses erros.

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