Os mitos não têm todos a mesma natureza. Há o mito sex-symbol, o mito cantor, o mito cinéfilo, a princesa-mito, o futebolista mito etc. Cada género, estilo, arte ou profissão erige o seu mito, podendo haver acumulação. Os mitos Marylin e Katherine Hepburn são simultaneamente sex-symbols e mitos da sétima arte. Se Diana é um mito, não o será tanto pelos seus dotes físicos mas antes pelos devaneios que a sua condição e as suas aventuras provocam: é o mito tradicional da “princesa encerrada numa torre” raptada pelo filho do caseiro patrão. Este é um mito libertário e não sexual. Já o de Marilyn é sexual (“ e deus criou a mulher”), como a Amália é o da rapariga do povo que foi uma grande cantora de fado. O que faz um mito é a raridade da personagem ou da situação, a excepção à regra vulgar, a genuidade do caso. Todos os mitos são heróis e vice-versa. Quanto mais excepcional é a personagem maior é o mito. Diana é um grande mito porque é uma grande excepção entre as princesas, assim como Amália é singular entre as fadistas. O mito implica a fraqueza dos demais. A sua força reside tanto nos méritos próprios como na mediocridade do mundo dos fãs. Se todos os futebolistas marcassem muitos golos coitado do Ronaldo. A raridade faz o mito. Marilyn era uma mulher espantosa, fora de série, porque o cinema era um bem raro, de elite, para o gozo do qual tinha um pindérico de se deslocar ao teatro da vila, e o espectáculo durava apenas três horas. Não se viam mulheres despidas senão no cinema e o sexo sem compromissos de casamento era um bem raríssimo e invejável. Marylin também gozou de outra excreção, porque casou com um intelectual quando era “regra” as da sua classe se juntarem ora com um artista ora com um banqueiro. Outras tantas mulheres, naquela época e agora tornam-se mitos pelas razões contrárias. Casar com empresários, políticos, famosos em geral, que o são sem serem excepcionais, torna as uniões simplesmente actos vulgares, de pessoas vulgares, com vidas conhecidas pelas façanhas medíocres e paupérrimas. A vulgaridade é inimiga do mito. Tal cantor de rock é um mito porque se suicidou, tal outro é-o menos porque ainda canta. A morte eterniza, mesmo que o falecido seja vulgar. O mito “James Dean”, é universal, é uma paixão rara, é um mito entre os mitos, porque além da sua genialidade imatura, fez tudo que pôde para morrer. Mitos sempre os haverão, mas já não serão o que foram. Hoje as situações excepcionais estão à mercê de um clic e de um zap. Nem é preciso ir um pacóvio à vila para se deleitar com a fotografia da personagem mítica, antes pelo contrário: para ter o que quiser do self-service dos mitos, não deve sair de casa, não se deve levantar do sofá, apenas tem de iluminar o ecrã do televisor privado e percorrer os imensos escaparates da Web pressionado os botões do controlo remoto. E assim morrem os sex-symbols, a fartura matou o mito. Mas há um fenómeno estranho e de difícil explicação: com o livre acesso e a larga circulação dos mitos, as pessoas cansaram-se das excepções e preferem a vulgaridade, o que até aí era o anti-mito. Os programas televisivos mais vistos são os que mais rasqueirice apresentam: gente pobre de espírito, descontente e estúpida. Zé Marias comuns que podemos encontrar na rua, nem feios nem bonitos, a puxar para o excepcionalmente vulgar. A excepção que engendrava o mito passou a ser coisa de velhos. Talvez os sex-symbols do futuro sejam os castos, os santos, os que sendo excepcionais não querem entrar numa dessas. Até poderíamos estabelecer uma lei sociológica para os mitos: quanto mais acesso a bens raros e mais democraticidade das opções houver, menos a heroicidade se venera, menos a excepção se premeia, menos a qualidade se procura e, portanto, menos é a duração dos mitos. No mundo global em que vivemos, e com cada vez mais acesso de muitos às mesmas condições, nota-se que o surgimento de alguém demasiadamente muito acima do “ ser bom”, é cada vez mais raro. A livre circulação de pessoas e informação, expande enormes doses de conhecimento que até há alguns anos atrás estava confinado apenas aos eruditos. O acesso a toda a informação possível através da Web, alarga as hipóteses de haver cada vez mais pessoas excepcionalmente informadas e dotadas de conhecimento, o que implica uma distribuição equitativa do saber, tornando os que “sabiam muito”, em vulgares sabedores. As condições de vida, de saúde e sociais em geral, deitam por terra a veneração de um mito, seja em que área for. Se há 50 anos atrás, Marilyn Monroe e mais recentemente, até mesmo a Madonna, se destacavam pelo seu carácter vincadamente libertino, fora do normal, hoje, são personalidades vulgares, que se vêem em qualquer esquina. Aquilo que deram ao mundo, não foi uma arte ou uma obra, foi a excepção de se demarcarem da maioria. Os mitos “antigos”, quase todos se demarcavam pela diferença de ser diferente, e não por serem diferentes por ser bons. Os mitos de hoje, estão
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Mitos
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