O Nobel de Saramago há 11 anos atrás não terá acrescentado nada à literatura portuguesa (ou literaturas de língua portuguesa); ou ainda, e talvez melhor, e para evitar equívocos, às literaturas de língua matriz portuguesa, senão aquilo que hoje, em tempos esquizofrénicos de mercado, chamam de “visibilidade”. A visibilidade externa da literatura portuguesa, se é uma boa noticia para os mercadores, pode no entanto ter méritos inespecíficos, designadamente o de chamar à atenção para géneros e para autores não comerciais, que normalmente são aqueles que fazem uma “corrente literária”. A acrescer ao fenómeno Pessoa, existem algumas iniciativas do Ministério da Cultura em feiras internacionais (Frankfurt, Paris e Genebra), que tem ajudado a levar a literatura portuguesa para a montra internacional, tirando-a da prateleira obscura, onde, durante anos estiveram esquecidas. E é de crer, no futuro próximo, se todo esse capital de prestigio não for desbaratado, que elas aí permaneçam, e que, além de Saramago e Lobo Antunes, possam continuar a repetir-se as traduções de poetas ou de ficcionistas tão pouco mundanos como Maria Velho da Costa ou Maria Gabriela Lhansol. Para lá do marketing, e à margem dele, a literatura portuguesa, nas suas diferentes vertentes, parece estar senão de excelente, de boa saúde. No século XX, a sombra de Pessoa, escondeu na obscuridade escritores absolutamente grandes como Mário de Sá-Carneiro, Camilo Pessanha, Vitorino Nemésio, Ruy Belo, Eugénio de Andrade, Ramos Rosa e outros tantos que poderia enumerar. O que aí vem já é mais problemático: estamos ainda muito perto dela, e ela está ainda muito perto de nós, para podermos avaliar da mais recente poesia portuguesa, daquela que surgiu na última década. Mas, evidentemente que com todas as recomendáveis reservas, o panorama não parece, para já, excessivamente animador. Salvo se calhar o nome, precocemente desaparecido de Daniel Faria. E o mesmo se diga das poesias do Brasil e dos países lusófonos de África. Dado o desconhecimento que em Portugal se tem dessas “literaturas”, só raros nomes conseguem romper como, no caso do Brasil, os de Drummond, Bandeira ou Manuel Barros, ou, no caso dos países de África, José Craveirinha, Rui Knopfli e Carsino Fontes. Ao contrário do que acontece com a poesia, a ficção portuguesa contem um inusual lote de escritores que superam quaisquer expectativas: desde Mafalda Ivo Cruz a Ana Teresa Pereira ao magnifico José Luís Peixoto, que fazem parte de uma jovem geração de escritores que parece ir ao arrepio da decantada menoridade do romance português em relação à poesia, e que nestas ultimas décadas, além de Saramago, Lobo Antunes, Cardoso Pires e Agustina, não terá tido muitos mais casos. Já a ficção da África lusófona, o futuro (o que quer que isso seja) passa hoje certamente por nomes como os de Mia Couto, Pepetela e Agualusa. Se noutras artes, cinema, música, pintura, etc, existem correntes e géneros artísticos que são feitos propositadamente para serem facilmente consumidos, na literatura acontece o mesmo. Pessoalmente trocaria a oferta das Fnac´s e Bertrand´s pelos antigos alfarrabistas. Nas grandes livrarias, somos induzidos a comprar, a vasculhar as obras que as mais produtivas editoras querem vender. Se a oferta é imensa, a fraca qualidade é proporcional. Provavelmente teremos alguma dificuldade em comprar um livro de Bocage, mas com toda a certeza, que as verbosidades que o Paulo Coelho escrevinha são-nos enfiadas pela goela abaixo. Como num supermercado acontece, na livraria da mesma forma, as promoções, e os produtos com mais saída são-nos colocados desde a entrada até á mais longínqua prateleira. Não é de estranhar que os mais reconhecidos escritores portugueses da actualidade sejam mais lidos além fronteiras que cá dentro. A literatura kitsch, que é representada por Nicholas Sparks, Margarida Rebelo Pinto, Susana Tamaro, Paulo Coelho, e outros mais, são a prova de que vende mais o fraco, habilmente disfarçado entre capas apelativas, do que a qualidade admirada “lá fora”, que as editoras não promovem nem arriscam elevar. Estes escritores são responsáveis pelo abate de inúmeras árvores, que suportam os quilómetros de baboseiras que escrevem. A floresta de livros light que habitam nas livrarias são uma autêntica praga para aqueles que tentam emergir no mundo das letras. Como em tudo, ou se tem dinheiro para apostar por conta própria, ou caso contrario, o melhor é desistir. Muitas vezes fala-se da falta de valor que damos ao que é nosso, e muitas vezes também, como neste caso da literatura, não nos dão a conhecer outras opções e correntes para que possamos optar. O acesso às letras nos mercados, restringe-se aos popularuchos livros de fácil consumo. A visibilidade do Nobel Saramago, catapultou a literatura portuguesa além fronteiras, embora, nunca foi, nem é aproveitada de forma a promover a boa qualidade. Actualmente, a língua portuguesa no mundo está a vender como nunca, pese embora não represente o que de melhor se escreve, mas dá lucro. A juntar à falta de aposta em novos escritores, junta-se o preço exorbitante dum livro. Desde o mais resumido romance, ao maior clássico mundial, os preços desanimam qualquer crente. Tardiamente a literatura igualou a fraca qualidade da TV, do cinema e da música “pimba”, mas agora que lá chegou, não sai de lá mais. O que “se vende mais agora”, até que nem é caro, tem uma capa gira, o escritor é piegas e está no top dos mais lidos…são estas características que empurram quem tem qualidade para a cave, dando lugar a sumptuosos livros, com uma grande hipótese de se tornarem óptimos substitutos da lenha.

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