Quanto não é dito num simples olhar? Na fórmula trémula como as mãos se tocam nervosamente no colo, na subtileza com que se passa a mão pelo cabelo… não parece haver duvidas de que a palavra é o expoente máximo da nossa capacidade de comunicar, mas muito do que somos transmitimo-lo, muitas vezes inconscientemente, pela linguagem não verbal. Diz-se que é a falar que a gente se entende, mas também parece certo que uma imagem vale mais que mil palavras. Comunicamos por gestos, expressões e até por silêncios. E quantas vezes o que ouvimos, apesar de nos parecer lícito soa-nos a falso? Temos na classe politica um óptimo exemplo, podem ser totalmente incompetentes na matéria que expõe, e ao mesmo tempo conseguirem disfarçar toda a ignorância atrás de um discurso habilmente vomitado. Provavelmente damos mais importância á forma de estar da pessoa, aos seus gestos, olhares, expressões faciais, do que propriamente ao discurso do mesmo. Quantos de nós já não sentimos simpatia ou antipatia por alguém, antes mesmo de conversar com a pessoa? De facto, toda a gente já foi assolada por tal, e que explicação lhe dar? Inconscientemente avaliamos tudo o que vemos, e é através dos olhos que filtramos a informação que nos é transmitida, e mesmo que estejamos enganados em relação a alguém, no bom ou mau sentido, somos sempre relutantes em relação à nossa má avaliação. Custa-nos admitir que: “não pensava que fosses assim”; “ate parecia ser boa pessoa”. Pois é, parecia, pensava, tudo verbos no Imperfeito…não é de admirar que fossem mau auguro!
Vivemos apressadamente é certo, o tempo urge, mas seria preferível talvez, dedicarmo-nos mais a saber escutar, o que é diferente de ouvir. Ouvimos tanto e tantas coisas, mas poucas delas nos fazem parar um instante para meditar sobre as mesmas.
Desde o mais imperceptível bla-bla dum bebé de meses, ao cacarejar dum galináceo, tudo tem um significado, que na maioria das vezes descuramos. Se é a característica que mais nos distingue dos animais, a linguagem, porque a usamos de forma tão despropositada? Existem também aqueles que devido a qualquer complexo, regem-se por jogos de palavras pouco usadas, de forma a subtilmente, transparecerem uma imagem politicamente correcta. Há palavras que não apreciamos, ou porque nos lembram coisas ou pessoas de que não gostamos muito. Da mesma forma que não gostamos de certos perfumes ou sabores, também não gostamos de ouvir nem proferir certas palavras. Actualmente, existe uma classe qualquer ( jet set), que se empenha em editar manuais de etiqueta, sobre saber falar socialmente, etc. Podemos ter uma pronúncia perfeita e um uso correcto gramatical, mas se falarmos em “sanita, robe, esposo, aleijei-me…” somos mais uns pacóvios da plebe. Para esses snobes, um cego passou a ser invisual, um pobre passou a ser um desfavorecido, mas por mais que se lhe mude a denominação, o invisual continua a não ver e o desfavorecido continua a viver mal. É fácil trocar as palavras, mas por mais soft´s que sejam, não mudam o significado real do que transmitem. Sou da ideia que há que chamar as coisas pelos nomes, e estas mudanças de vocabulário é virtude de uma cambada de hipócritas sem palanque. Todos certamente, que se regem por valores morais, evitam dizer os denominados palavrões. Nunca entendi bem a palavra palavrão, talvez seja o grau aumentativo de palavra, ora então uma palavra grande. De facto, já que são palavrões, fazem parte também do nosso vocabulário, uns bastantes depreciativos, outros, por desconhecimento, tornados depreciativos. É feio dizer fodasse…mas é feio porque a sociedade deu a volta ao termo original. Ian Fuda, filósofo chinês de há muitos séculos atrás, que pregava o Fudismo…é daí que advêm a palavra “fo…”. Hoje, depreciamos a palavra , que nada tem a ver com a sua origem. Quem conhece Sigur Rós, se não sabe, cantam e encantam numa língua que não existe (hopelandic). Os seus sons chegam-nos pela sonoridade de palavras que não existem, pelo sentimento que transmitem e não pelo seu entendimento.
Se somos capazes de apreciar palavras que não existem, no mínimo, entendamos que as que existem, fazem parte da nossa génese e mesmo que sejam “feias”, representam também uma pequena parte da nossa linguagem. Muitas das palavras feias que actualmente conhecemos, não são o que representam, por exemplo, chamamos burro a alguém, para evidenciar a sua pouca esperteza. Ao chamarmos burro a alguém, mesmo sendo depreciativo, deveria representar teimosia, porque é isso que o equídeo é, muito teimoso. Mas é esperto! Na verdade existem milhões de palavras, trocadilhos, jogos verbais, imensidões de sons, frases e expressões que adquirimos sem conhecermos o seu real significado. Daí que, muitas vezes, abrimos a boca sem saber o que dizemos, julgamos com os olhos apenas, sem de facto conhecermos, o que sequencia aparatosos mal-entendidos e más avaliações. A linguagem está na cabeça, a boca é o canal apenas…e se temos dois ouvidos e apenas uma língua, provavelmente seria boa ideia, ouvirmos o dobro daquilo que falamos.

Sem comentários:
Enviar um comentário