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domingo, 22 de março de 2009

O visual dos olhos

O iluminista David Hume dizia: “a beleza das coisas está no espírito de quem as contempla, e no de quem as cria.” Pessoalmente não poderia concordar mais. Se na época em que viveu a beleza estaria associada a mulheres voluptuosas e homens com bigodes farfalhudos, hoje, essas duas características são antagónicas do conceito da beleza actual. Afirmamos então, que independentemente da época, país ou cultura, a beleza foi e é um conceito subjectivo. Aceitando esta premissa, será que a imagem que temos de nós próprios corresponde à realidade daquilo que somos? Certamente que não. A imagem que fazemos de nós próprios representa mais do que a forma como nos vemos. Dela fazem parte o nível de confiança que sentimos, as nossas capacidades de analisar, reflectir, escolher e decidir a estabilidade dos nossos valores, dignidade e capacidade de adequação aos desafios da vida. Criamos a nossa imagem, ao longo do percurso da nossa vida. Se não sofrermos de nenhuma patologia, o mais certo é vermo-nos ao espelho com benevolência. Ao invés por exemplo, das pessoas anorécticas, que apesar da balança indicar pouco peso, vêem-se sempre com peso a mais. As pessoas ditas “normais”, não se vêem com barriga, com certas rugas ou outros sinais de envelhecimento. A falta de fiabilidade do nosso auto-conhecimento, indicar-nos-á que provavelmente ainda não amadurecemos nem estabilizamos a nossa auto-estima. Sócrates recomendava – conhece-te a ti próprio; aconselhava-nos a fazer uma viagem critica pelo nosso interior, de forma a conhecermos os nossos comportamentos e atitudes, e em simultâneo a sabermos aproveitar a opinião dos outros como fonte de informação sobre nós mesmos. Para construirmos a nossa imagem utilizamos informações. Quanto mais informação tivermos, mais próxima da realidade será a percepção que temos de nós mesmos. A nossa capacidade de auto-análise, que vai evoluindo com o nosso crescimento, muitas vezes não é acompanhada pelo nosso auto-conhecimento, porque se ao longo dos anos a nossa imagem muda, interiormente mudamos também, por isso Sócrates “mando-nos” conhecer a nós próprios, para que possamos diferenciar o que somos, daquilo que achamos que somos.

Se segunda-feira nos acontecer algo desagradável, provavelmente teremos uma imagem de nos próprios negativa e deficitária. Na sexta-feira seguinte, se nos acontecesse algo de extraordinário, sentíamo-nos com o ego em alta, capazes de enfrentar tudo e todos, com a nossa imagem colocada nos píncaros. A alternância tão gradual, deve-se ao facto de nos faltar equilíbrio interior, e frieza de análise das situações que a vida nos proporciona. Logo, a imagem que temos de nos, é influenciada pelo momento que atravessamos, e também pela falta de conhecimento que temos de nós mesmos. Então, quando apelidamos algo ou alguém de belo, estamos a ser subjectivos. Porque se a imagem que temos de nós é errada, que base temos para definir a imagem dos outros? Pois, toda a gente dirá que facilmente distingue o belo do feio, sem dúvida que sim, e sem dúvida que o que para mim é feio, para outros pode não ser.

Penso que há uma discrepância entre bonito e belo, consideraria bonito, mais como agradável e belo, uma definição mais universal. Penso que a maioria das pessoas são bonitas, uma minoria muito feias e outra minoria extremamente belas. A maioria deve concordar que o Príncipe Carlos é bem provido de fealdade, assim como a Mónica Belluci é dotada de uma rara beleza. Normalmente nestas coisas a maioria tem razão. Certamente que, em todos nós existirão alguns conceitos comuns, que nos permitem discordar de algo muito belo ou muito feio. Toda a gente tem uma característica que admiramos. Mas porque na maioria das vezes somos maus avaliadores, descuramos um cabelo bonito porque não gostamos do rosto, ou enfatizamos um rosto banal porque gostamos do corpo. Dizem muitos que a verdadeira beleza está no interior, talvez quem o diga seja feio. Os nossos olhos enganam-nos muitas vezes, e o nosso interior nem sempre está preparado para absorver e meditar sob a informação que eles nos transmitem. Porventura, saibamos decifrar tudo aquilo de que somos compostos, interior e exteriormente, para que à posteriori cheguemos a conclusões o menos erradas possíveis. E eduquemos a nossa cabeça, de forma a dar menos importância ao que vemos, porque quer queiramos quer não, os nossos olhos não vêem o que temos cá dentro.

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