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sexta-feira, 13 de março de 2009

Tempo

“Perdi o meu relógio. Oh não, todos os relógios pararam”. Horror dos horrores, e se foi o Tempo, ele próprio que desapareceu? Podia ser o princípio de um pesadelo, mas não, na prática é apenas um convite a sondar essa coisa simultaneamente tão estranha e tão próxima, a que damos o nome de Tempo.

Na verdade o tempo não é um objecto equiparável a uma mesa ou a uma cadeira. Não temos um conhecimento directo, porque o tempo é invisível, silencioso, não tem cheiro nem sabor. Nem afecta qualquer um dos nossos sentidos e pode mesmo ser imperceptível. Aquilo que observamos em nosso redor nunca é o tempo ele mesmo, mas apenas os traços que deixa no espaço e os efeitos que provoca: o desgaste de um automóvel, a erosão de uma montanha, as rugas do avô etc. Na verdade confundimos sistematicamente o tempo com a sua manifestação primária – o movimento.

Temos o hábito de falar no curso do tempo segundo três etapas: o passado, o presente e o futuro. O passado, evidentemente não existe, porque por definição, o passado já não é mais. Existiu. O futuro, também não existe porque ainda não aconteceu. Resta o presente, que nos parece bem presente, mas que um segundo depois deixa de o ser. Pois, o presente não dura mais que um instante e desaparece a partir do momento em que aparece. Já deixou de ser a partir do momento em que começou. Sempre que aparece é renovado pelo seguinte que logo é substituído. De certa forma, o presente não dura porque se esfuma, e simultaneamente que ele dura sempre porque está constantemente presente. Mas num turbilhão de tantas definições, o que é o tempo afinal? Pode-se sempre dizer que o tempo é o que ele faz ou desfaz, é a imagem móvel da eternidade ou que é a forma mais cómoda que a Natureza encontrou para que tudo não aconteça de uma só vez. Quantas vezes imaginamos e desejamos que os relógios parassem? Para saborear deleitadamente um paladar, para prolongarmos ao máximo um momento de alacridade. E quantas vezes desejamos que o tempo avançasse rápido para que certa situação desaparecesse rapidamente, uma simples gripe terminasse rapidamente. A ideia da paragem ou avanço forçado do tempo é um absurdo, porque se todos os relógios parassem, o tempo não parava, são os nossos desejos e medos que nos dão a ideia de parar ou avançar o tempo mediante o nosso estado em determinado momento. Quantas vezes desejava que o tempo parasse num momento inesquecível, que se tornasse amigo em vez de destruidor. Se temos sempre a sensação de que, o que é bom passa rápido, é porque o que é bom é intemporal. Sem que o tempo se suspenda, a memória de algo ou alguém cola-nos a alma e o coração ao presente. A memória de um beijo de alguém amado, faz com que o tempo pare sempre no meu presente e o espaço deixe de existir.

No fundo, todos temos o nosso tempo, de fazer, esperar, desejar e viver sem pensar muito nele, e muitas vezes, erradamente criticamo-nos porque perdemos tempo com algo ou alguém que não merecia a nossa atenção. Mas se vivemos esse tempo, não o perdemos, apenas o gastamos mal. Com um ritmo mais ou menos parecido, todos queremos aproveitar o tempo, gozá-lo da melhor forma, para tal, é aconselhável que deixemos de “matar o tempo” quando não temos nada interessante para fazer, porque podemos mata-lo as vezes que quisermos, mas no final de tudo, é ele que nos enterra.

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